Saturday, 5 November 2011

Cultura: nossa maior vantagem competitiva?

Por Breno Nunes, PhD



Tive o imenso prazer de ser orientado durante meu doutorado na Aston Business School (Inglaterra) pelo Professor David Bennett. David é, no meio acadêmico, um dos maiores expoentes mundiais da área de gestão de operações e tecnologia. David dedicou-se por 30 anos à pesquisa, trabalhando em diversos países emergentes (China, Malásia, Brasil, Tailândia, para citar os mais recentes). Sua especialidade estava na análise da transferência de tecnologia de países industrializados para países em desenvolvimento. Em uma de nossas conversas, perguntei qual seria a maior vantagem do Brasil contra os outros países emergentes do grupo chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China). Sem titubear, David me surpreendeu dizendo que achava que era a cultura brasileira. Para ele, a proximidade da cultura ocidental e a capacidade da cultura brasileira de lidar e acomodar novas ideias era algo que os outros tinham dificuldade de imitar.


Fiquei lisonjeado e confuso ao mesmo tempo. Passei a vida escutando que o Brasil seria um país fantástico se não fosse seu povo e sua cultura. Ouvi professores de História divagarem teses de como seria o Brasil se tivesse sido colonizado por ingleses ou holandeses – pobres portugueses, levaram a culpa por nosso subdesenvolvimento. Como podia ser cultura, a nossa eterna vilã do subdesenvolvimento, a nossa atual vantagem competitiva?

Antes de tudo, qual é a definição de cultura que utilizo aqui? Entendo o conceito de cultura, por uma descrição simples, sendo o conjunto de regras formais e informais (leis, religião, crenças, hábitos, etc) pertencente a um grupo, organização, ou sociedade. Cultura não é algo estático; contudo, é o que você ‘aprende’ naturalmente por ser membro de uma sociedade. Sendo assim, o indivíduo herda uma percepção da cultura da qual pertence que o ajuda a moldar uma visão de mundo e o identifica e define como membro de um grupo maior por suas crenças e atitudes.

Pensei bastante e até relutei em concordar com o Professor Bennett. Sendo brasileiro, tendo vivido no país por 27 anos, e conhecendo bem nossos ‘problemas’ culturais de corrupção, falta de planejamento, desorganização, dentre outras mazelas, seria difícil nossa cultura ser o nosso ponto positivo e diferencial. É incrível como às vezes os estrangeiros visualizam nossas virtudes culturais melhor que nós mesmos. Lembrei de uma conversa que tive com o presidente mundial de engenharia da Toyota. Ele também me dizia como a Fábrica da Toyota no Brasil era uma das melhores em capacidade de inovação. Ele ligava isso à cultura brasileira.

Tendo convivido com diversas culturas, aprendi hoje a compreender melhor o valor da cultura brasileira em suas dimensões. No ambiente de negócios então, entendi que se sustentada em uma boa plataforma, os brasileiros navegam em alta velocidade de produtividade e inovação devido ao seu legado cultural. Nossos ‘defeitos’ não podem manchar a pintura inteira de nossa cultura. Aceitar a corrupção não é um problema único da gente – os russos sofrem bem mais com isso. Isso se corrige com melhores leis, fiscalização, e claro, melhores políticos, empresários, etc. Se você acha que temos descaso com a pontualidade, visite a Índia. A China, que já é a 2ª maior economia do mundo, tem problemas sérios com a democracia e burocracia que não podem ser corrigidos em curto prazo.

Enfim, no meu primeiro post para o Blog Globaliza Brasil!, quero trazer a discussão de como nossa cultura pode nos ajudar a tornar-se uma potência global. Eu penso que pelo menos ela não deveria ser mais usada como desculpa ou ser culpada por nossos atrasos... ao invés, ser analisada e desenvolvida a fim de manter e melhorar seus pontos fortes e reconhecer suas limitações e pontos negativos.

1 comment:

  1. Nunca parei para pensar na cultura brasileira como uma vantagem até ler este artigo teu. Mas sem pensamentos mais profundos consigo achar que o Professor Bennett pode ter razão.
    Se pensarmos bem, nem tudo que é considerado perfeito é perfeito aos olhos de todos. A mulher perfeita não é perfeita para todos os homens ou até outras mulheres.
    Será que a pontualidade suíça faria sucesso no Brasil? Acredito que não... imagine todo mundo chegando as 19h para uma festa marcada para o mesmo horário, a dona da casa ainda estaria se maquiando, o anfitrião ainda estaria vendo o jornal de cuecas e tomando uma latinha de cerveja.
    Imagine que resultado teria a maneira direta dos franceses de falar que sua piada não teve graça nenhuma.
    Esses são exemplos simples de situações cotidianas, porém são essas simples ações que conquistam ou afastam um investidores, que definem a personalidade de uma pessoa, entre outras características que também podem influenciar em como um mercado se comporta.
    Nós brasileiros temos o hábito de ver somente nossos fracassos e os sucessos dos países desenvolvidos e consequentemente atribuímos este sucesso a cultura. Mas que ponto nestas culturas que é importante e que não estamos notando? Quando Inglaterra, EUA e Austrália tem culturas completamente diferentes, exemplo que se repete entre várias nações dominantes e suas respectivas colônias.
    Em outras palavras, devido a complexidade da variável cultura , não podemos afirmar que se tivéssemos uma cultura diferente teríamos mais ou menos sucesso.

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