Wednesday, 21 December 2011

Risco de inflação, real forte e falta de mão-de-obra - uma resposta com estratégia de produção

Por Breno Nunes, PhD

Muito tem se falado ultimamente sobre a preocupação com a volta da inflação no Brasil e a alta valorização do real, bem como seus consequentes ( e já conhecidos) problemas. Dentro desse contexto, fala-se também sobre a falta de mão-de-obra impedindo o aumento da produção já em 2011, com tendência a piorar nos próximos anos. Sem surpresa, a maioria desses artigos na mídia são de alguns economistas que devem pouco entender de estratégia de produção. Nesse post do Globaliza Brasil!, irei mostrar uma perspectiva da engenharia de produção e administração de empresas que pode nos fazer encarar a situação de um ângulo diferente e focar em soluções ao invés de ficarmos presos a problemas que podemos prever.

Vamos começar com o risco de alta da inflação. Quais os fatores que estão influenciando uma provável alta da inflação? Em uma economia relativamente fechada como a brasileira, o principal motivo da volta da inflação pode residir em dois fatores principais: aumento do custo de insumos essenciais (petróleo?) ou aumento do poder de compra (e demanda) acima do aumento da capacidade de produção, o que por fim pressiona os preços dos produtos em geral no mercado. Dada a situação econômica atual do Brasil, leva-se a crer que a segunda opção tem um peso maior no risco de aumento da inflação. A retirada de pessoas da linha da miséria, o crescimento das classes D e C, e o baixo nível de desemprego são indicadores fortes para sustentar a tese que a demanda força mais o crescimento dos preços do que o aumento dos custos de produção em si.

Com um mercado interno crescente, investidores visualizam o Brasil com ótimos olhos e a entrada de capital estrangeiro junto com a estabilidade econômica forçam a moeda a subir de valor em relação ao dólar também. Alguns economistas pessimistas (eles de novo!) voltam a dizer que o real forte vai quebrar as empresas nacionais, que as exportações vão cair, e o desenvolvimento do país entra em cheque novamente...
Imagine-se agora sendo CEO ou mesmo o gerente de produção de uma empresa brasileira. O cenário básico: o mercado interno está aquecido, o real está forte, e está difícil de contratar mais pessoal. O governo ameaça diminuir tarifas de importação para controlar a inflação de preços causada pelo aumento da demanda. Competir no mercado global com o real forte é mais difícil uma vez que seu produto fica ‘mais caro’. O que você faz? (1) Acredita nos economistas e começa a rezar para o governo criar uma política protecionista ou (2) Reavalia sua estratégia de produção, examina seu maquinário e revê as formas de aumentar produtividade utilizando o contexto a favor da sua empresa.

Com o Real forte e dificuldades para contratar mão-de-obra é a hora perfeita para comprar maquinário tecnologicamente avançado elevando produtividade e reduzindo custos de maneira substancial. As máquinas de alta performance são atualmente feitas principalmente na China, Alemanha, Japão, Itália e Coréia do Sul. Com exceção da China, os dez maiores produtores de maquinário são países desenvolvidos. A moeda forte coloca as empresas brasileiras em ótima condição de compra. É através de tecnologia (de processo) que se ganha produtividade de forma mais acentuada. Por anos, empresários investindo em tecnologia eram mal vistos uma vez que estávamos com alto nível de desemprego. Com desemprego em um nível ‘civilizado’, não há problemas em trocar trabalho humano por máquina. É o momento de eliminar colheitas manuais da cana-de-açúcar, as queimadas, e mecanizar o campo. Vai ser bom pro bolso, para o meio ambiente, e principalmente para a imagem do primeiro setor brasileiro que uma vez ou outra aparece na mídia internacional devido às práticas escrativistas de séculos anteriores.

Dentro da estratégia de produção também vale pensar em uma cadeia de fornecedores global, largar componentes de tecnologia obsoleta, comprá-los em países de baixo custo e concentrar-se em áreas de maior valor agregado do processo produtivo. Esse é um dos primeiros passos para transformar produção (i.e. operações) em uma arma competitiva, e claro, rir bastante das previsões desastrosas de certos economistas...


Monday, 12 December 2011

Os incomodados que se retirem!

Por Breno Nunes, PhD


Em 2002, quando concluí o curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um professor me disse: “Breno, só há uma saída para se dar bem por aqui. É o aeroporto – e tem que ser internacional!”. Por mais radical que pudesse ser a frase (que se diga aqui, dita em tom de brincadeira) norteou muitos brasileiros nos anos 90 e início dos anos 2000. Contudo, a situação do Brasil hoje é completamente diferente de 10 anos atrás. Para se ter ideia, em 2005, um aluno de doutorado bolsista na Inglaterra ganhava o mesmo que um professor já com PhD nas universidades federais aqui. Hoje, o salário inicial para professor doutor dos dois países é praticamente o mesmo. Apesar da progressão de carreira ainda ser diferente, o Brasil de hoje já oferece salários competitivos na academia e no meio industrial em relação ao mercado global.

A remuneração, a progressão de carreira, e o ambiente de trabalho são os maiores fatores de satisfação/insatisfação profissional. Em escala global, os países desenvolvidos tendem a ofertar melhores salários e condições de trabalho, o que inevitavelmente atrai maiores talentos e gera o brain drain (drenagem cerebral) nos países em desenvolvimento. Em alguns países em desenvolvimento, a inércia, a lentidão da mudança, afasta os talentos insatisfeitos. Felizmente, o cenário está mudando. Muitos dos meus alunos chineses e indianos na Aston Business School já consideram voltar para seus países ao invés de buscar emprego na Inglaterra. No Brasil, creio que a situação não vai ser diferente muito em breve.

O Brasil do passado era o Brasil do lema “os incomodados que se retirem”. Com o novo contexto econômico, temos condições de mudar isso para “os incomodados que fiquem no Brasil (ou voltem!) e mudem o país para melhor”. À medida que o caminho da meritocracia fica melhor estabelecido, os incomodados terão papel fundamental no desenvolvimento de empresas ágeis, criativas, e inovadoras. Tanto no ambiente privado como público, os insatisfeitos poderão ter maiores oportunidades para concretizar as mudanças estruturais necessárias se a eles forem destinados melhores recursos e condições de trabalho.

Quando digo incomodados e insatisfeitos, refiro-me àqueles que não se limitam a apenas reclamar e apontar erros, mas agem de acordo com sua insatisfação, seja pela ambição individual ou pelo bem coletivo. Repito o que escrevi certa vez no meu twitter (@brenotsnunes): Insatisfação precisa ser acompanhada de atitude. Insatisfação sem atitude é a receita para vários males, inclusive a depressão. O que precisamos cultivar no Brasil, nas instituições públicas do país, e nas empresas nacionais, são os insatisfeitos ativos – aqueles que quando insatisfeitos agem ao invés de apenas reclamar.