Monday, 12 December 2011

Os incomodados que se retirem!

Por Breno Nunes, PhD


Em 2002, quando concluí o curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um professor me disse: “Breno, só há uma saída para se dar bem por aqui. É o aeroporto – e tem que ser internacional!”. Por mais radical que pudesse ser a frase (que se diga aqui, dita em tom de brincadeira) norteou muitos brasileiros nos anos 90 e início dos anos 2000. Contudo, a situação do Brasil hoje é completamente diferente de 10 anos atrás. Para se ter ideia, em 2005, um aluno de doutorado bolsista na Inglaterra ganhava o mesmo que um professor já com PhD nas universidades federais aqui. Hoje, o salário inicial para professor doutor dos dois países é praticamente o mesmo. Apesar da progressão de carreira ainda ser diferente, o Brasil de hoje já oferece salários competitivos na academia e no meio industrial em relação ao mercado global.

A remuneração, a progressão de carreira, e o ambiente de trabalho são os maiores fatores de satisfação/insatisfação profissional. Em escala global, os países desenvolvidos tendem a ofertar melhores salários e condições de trabalho, o que inevitavelmente atrai maiores talentos e gera o brain drain (drenagem cerebral) nos países em desenvolvimento. Em alguns países em desenvolvimento, a inércia, a lentidão da mudança, afasta os talentos insatisfeitos. Felizmente, o cenário está mudando. Muitos dos meus alunos chineses e indianos na Aston Business School já consideram voltar para seus países ao invés de buscar emprego na Inglaterra. No Brasil, creio que a situação não vai ser diferente muito em breve.

O Brasil do passado era o Brasil do lema “os incomodados que se retirem”. Com o novo contexto econômico, temos condições de mudar isso para “os incomodados que fiquem no Brasil (ou voltem!) e mudem o país para melhor”. À medida que o caminho da meritocracia fica melhor estabelecido, os incomodados terão papel fundamental no desenvolvimento de empresas ágeis, criativas, e inovadoras. Tanto no ambiente privado como público, os insatisfeitos poderão ter maiores oportunidades para concretizar as mudanças estruturais necessárias se a eles forem destinados melhores recursos e condições de trabalho.

Quando digo incomodados e insatisfeitos, refiro-me àqueles que não se limitam a apenas reclamar e apontar erros, mas agem de acordo com sua insatisfação, seja pela ambição individual ou pelo bem coletivo. Repito o que escrevi certa vez no meu twitter (@brenotsnunes): Insatisfação precisa ser acompanhada de atitude. Insatisfação sem atitude é a receita para vários males, inclusive a depressão. O que precisamos cultivar no Brasil, nas instituições públicas do país, e nas empresas nacionais, são os insatisfeitos ativos – aqueles que quando insatisfeitos agem ao invés de apenas reclamar.

1 comment:

  1. É fantastico ver como o Brasil tem crescido, independentemente de quem sejam os méritos, o Brasil está bem melhor. E isso não são apenas palavras de brasileiro empolgado, são fatos vistos pelo mundo afora. Recentemente a revista The Economist publicou o artigo Go south, young scientist, que tratava do aumento do investimento da pesquisa no Brasil e a "moral" que o Brasil tem no cenário de pesquisa internacional, de forma que jovens cientistas tem sido motivados a vir fazer pesquisa aqui.
    O artigo vale a pena, veja aqui http://www.economist.com/node/17851421

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